No complexo e fascinante mundo do direito, cada formalidade, por mais aparentemente secundária que seja, desempenha um papel crucial. A validade de um ato judicial, em particular de uma sentença, depende de uma série de requisitos processuais rigorosos. Mas o que acontece quando uma formalidade, como a assinatura do Presidente do colegiado, não pode ser aposta? O recente Acórdão n.º 17690 de 30/06/2025 do Supremo Tribunal de Cassação esclarece um aspeto delicado e fundamental do processo civil: a subscrição da sentença em caso de impedimento do Presidente. Uma decisão que oferece importantes reflexões sobre o equilíbrio entre rigor formal e substância da justiça.
O caso específico que levou à decisão do Acórdão n.º 17690/2025 diz respeito a um recurso apresentado por F. D. contra C. A., na sequência de uma decisão do Tribunal de Apelação de Ancona. O ponto focal era a validade de uma sentença em que a subscrição do Presidente do colegiado tinha sido aposta pelo juiz mais antigo, com a simples anotação de um genérico “impedimento”. A questão não é de pouca importância: a falta ou irregularidade da assinatura de um juiz poderia, em princípio, minar a validade do próprio provimento, abrindo caminho a contestações e recursos.
O Supremo Tribunal de Cassação, com o seu Acórdão, reiterou um princípio consolidado, mas de extrema importância prática, que merece ser examinado em detalhe. Eis a máxima que resume o princípio expresso:
Em matéria de subscrição da sentença, se o presidente do colegiado que a emitiu vier posteriormente a cessar funções ou recusar, por qualquer motivo, praticar os atos de sua competência em razão das funções exercidas, não é nula nem inexistente a sentença em que os referidos encargos tenham sido desempenhados pelo membro mais antigo do colegiado julgador, com a anotação de ter subscrito em vez do presidente "impedido", sem que seja necessário indicar a causa específica do impedimento.
Esta máxima esclarece um ponto fundamental: a lei, embora preveja formalidades precisas, não se transforma num obstáculo intransponível para a justiça. Se o Presidente do colegiado não puder assinar a sentença (porque cessou funções, se demitiu, ou por qualquer outro motivo, mesmo uma recusa), a tarefa pode ser desempenhada pelo juiz mais antigo do colegiado. E, o que é ainda mais relevante, não é necessário especificar a razão detalhada do impedimento. Basta a simples anotação “em vez do presidente impedido”. Esta flexibilidade garante que um provimento judicial, fruto de um longo e complexo processo, não seja anulado por um mero impedimento formal, preservando a certeza do direito e a eficiência da máquina judicial.
A decisão da Cassação insere-se num quadro normativo bem definido, principalmente o Código de Processo Civil, e coloca-se em continuidade com orientações jurisprudenciais anteriores. As referências normativas principais são:
A interpretação da Cassação, embora reconhecendo a importância da assinatura como elemento de autenticidade e paternidade do ato, evita uma aplicação excessivamente formalista das normas. O objetivo é prevenir que um vício meramente formal, não incidente sobre a vontade decisória do colegiado, possa comprometer a validade substancial da sentença. A Corte, de facto, já tinha expresso princípios análogos em decisões anteriores, como as Sentenças n.º 20960 de 2019 e n.º 4326 de 2012, confirmando uma orientação voltada para a salvaguarda da estabilidade dos provimentos judiciais.
O Acórdão n.º 17690/2025 da Cassação representa um exemplo eloquente de como a jurisprudência, embora no respeito das formas processuais, sabe interpretar as normas com um olhar para o pragmatismo e para a efetividade da tutela jurisdicional. A possibilidade de o juiz mais antigo subscrever a sentença em caso de impedimento do Presidente, sem a necessidade de especificar a causa de tal impedimento, não é uma mera derrogação formal, mas uma garantia de continuidade e de certeza do direito.
Esta decisão assegura que as partes em causa não vejam os resultados de um julgamento anulados por um defeito processual que não incide sobre a substância da decisão. Contribui para agilizar os procedimentos e prevenir recursos instrumentais baseados em tecnicalidades formais, reforçando a confiança na administração da justiça. Em suma, um passo importante para um sistema judicial mais eficiente e menos vulnerável a entraves burocráticos, sempre no pleno respeito dos princípios fundamentais do devido processo legal.