O sistema de justiça penal, com sua intrincada rede de normas e procedimentos, está em constante evolução, especialmente após a introdução da chamada "Reforma Cartabia" (Decreto Legislativo n.º 150/2022). Esta reforma teve um impacto significativo em vários aspectos do processo, incluindo a gestão de ritos alternativos e novas contestações. Neste contexto dinâmico, a Corte de Cassação interveio com uma decisão de particular relevância, o acórdão n.º 29392 de 14 de julho de 2025 (depositado em 8 de agosto de 2025), que oferece clareza sobre um ponto crucial: a possibilidade para o réu de aceder ao rito sumário em caso de novas contestações em sede de audiência. Compreender esta decisão é fundamental para quem se encontra a enfrentar um processo penal ou para os operadores do direito que pretendam aprimorar a sua estratégia de defesa.
Durante uma audiência penal, pode acontecer que surjam factos novos ou diferentes qualificações jurídicas dos factos já contestados. Nesses casos, o Ministério Público tem a faculdade de proceder a novas contestações, nos termos previstos pelos artigos 516, 517 e 518, parágrafo 2.º, do Código de Processo Penal. A nova contestação pode referir-se a um facto diferente, a um crime conexo ou a uma circunstância agravante. O surgimento de uma nova contestação é um momento delicado para o réu, pois pode alterar profundamente o cenário processual.
O rito sumário, por outro lado, é um rito especial que permite ao réu obter uma redução de um terço da pena em caso de condenação, mediante a renúncia à audiência e a decisão do juiz com base nos autos de inquérito preliminar. É uma escolha estratégica que geralmente é feita na fase preliminar, mas a questão que se colocou foi se uma nova contestação em audiência poderia reabrir os prazos para o pedido deste rito para todos os crimes.
A Reforma Cartabia introduziu alterações significativas ao artigo 519.º do CPP, precisamente para reforçar as garantias de defesa em caso de novas contestações. A intenção do legislador foi assegurar ao réu a possibilidade de avaliar a sua posição também em relação às novas acusações e de escolher o rito mais conveniente. No entanto, a interpretação destas alterações gerou incerteza, em particular sobre a recuperação da faculdade de solicitar o rito sumário. Perguntava-se se esta possibilidade deveria estender-se a todas as imputações, incluindo as originárias para as quais o réu já tinha, consciente ou inconscientemente, deixado expirar os prazos para o pedido do rito alternativo.
A Suprema Corte, com o acórdão n.º 29392 de 2025, forneceu uma resposta clara e definitiva a esta questão. A Quinta Seção Penal, presidida pela Doutora P. R. e com relator o Doutor C. F., rejeitou o recurso interposto, confirmando a decisão da Corte de Apelação de Génova. A máxima de direito extraída desta decisão é de fundamental importância:
Em matéria de novas contestações em sede de audiência, o exercício dos poderes do Ministério Público previstos nos arts. 516, 517 e 518, parágrafo 2.º, do Código de Processo Penal, mesmo após a alteração do art. 519.º do Código de Processo Penal introduzida pelo Decreto Legislativo de 10 de outubro de 2022, n.º 150 de 2022, não determina, para o réu, a recuperação da faculdade de solicitar o rito sumário para todos os crimes originalmente contestados, em relação aos quais já tinha conscientemente deixado expirar o prazo para o respetivo pedido, mas apenas a possibilidade de solicitar o rito alternativo para a imputação objeto de modificação.
Esta decisão esclarece que a Reforma Cartabia, embora garantindo maiores direitos ao réu, não pode ser interpretada de forma a permitir uma recuperação indiscriminada da faculdade de solicitar o rito sumário para acusações que já estavam presentes desde o início do processo. A lógica subjacente a esta decisão é a de equilibrar o direito de defesa com os princípios de economia processual e de certeza do direito. O réu teve o seu tempo para avaliar as acusações originárias e escolher o rito; se não o fez, essa escolha é considerada definitiva para essas imputações específicas. A nova contestação abre uma nova janela de oportunidade, mas esta está estritamente limitada à nova acusação.
O acórdão n.º 29392 de 2025 da Corte de Cassação representa um ponto de referência na interpretação dos efeitos da Reforma Cartabia em matéria de novas contestações e ritos alternativos. Ele delineia com precisão os limites dentro dos quais o réu pode exercer o seu direito de escolher o rito sumário, impedindo um uso instrumental das novas contestações para "recuperar" oportunidades processuais já expiradas. Esta decisão é um alerta para todos os intervenientes no processo penal para um planeamento estratégico cuidadoso e consciente desde o início, reiterando a importância de cada escolha processual e das suas consequências definitivas.