O tema da notificação de atos tributários é sempre um ponto crucial na relação entre o cidadão e a Administração Financeira. Quando variáveis complexas como calamidades naturais e as consequentes dificuldades logísticas são inseridas, a questão assume contornos ainda mais delicados. É neste contexto que se insere o recente Acórdão do Tribunal da Cassação n.º 15196, publicado em 7 de junho de 2025, que forneceu importantes esclarecimentos sobre a notificação de atos de imposição tributária nas áreas atingidas pelo sismo nos Abruzos de 2009, as chamadas “zonas vermelhas”.
A decisão, que teve como Presidente o Dr. A. Carrato e como Relator o Dr. M. M. Fracanzani, aborda o recurso interposto por T. (T. A. A.) contra A., cassando com reenvio uma sentença anterior da Comissão Tributária Regional de L'Aquila. O cerne da decisão reside na correta qualificação da irreperibilidade do contribuinte domiciliado numa “zona vermelha”, com repercussões significativas sobre os encargos de notificação para a Agência das Entradas e sobre os deveres de comunicação para o contribuinte.
A notificação de um ato é um momento fundamental, pois a partir dela decorrem prazos essenciais para a defesa do contribuinte. O Código de Processo Civil e as normas tributárias preveem diversas modalidades de notificação, incluindo as em caso de irreperibilidade do destinatário. Em particular, distinguem-se duas situações principais:
A diferença entre estas duas formas de irreperibilidade não é meramente formal, mas substancial, pois incide profundamente sobre os encargos da Administração Financeira e, consequentemente, sobre a validade da própria notificação e sobre a possibilidade de o contribuinte tomar conhecimento do ato.
A situação examinada pelo Tribunal da Cassação dizia respeito a um contribuinte com domicílio fiscal situado na “zona vermelha” do sismo dos Abruzos de 2009. A Comissão Tributária Regional considerou inválida a notificação dos atos de apuração por falta do envio da carta registada informativa, aplicando, portanto, o regime da irreperibilidade relativa (art. 140 c.p.c.).
A Suprema Corte, com o Acórdão n.º 15196/2025, inverteu esta abordagem, afirmando um princípio de direito de notável importância. Eis a máxima, tal como enunciada:
Em matéria de notificação de atos de imposição tributária nas áreas atingidas pelo sismo dos Abruzos de 2009, o contribuinte, com domicílio fiscal sito na chamada "zona vermelha", não se encontra em condições de irreperibilidade relativa, nos termos do art. 140 c.p.c., mas sim de irreperibilidade absoluta, segundo a disciplina do art. 60, n.º 1, alínea e) do d.P.R. n.º 600 de 1973, com a consequência de que a Agência das Entradas está isenta do envio das comunicações posteriores à afixação do aviso de depósito; daí decorre, ademais, que, sendo o contribuinte sujeito ao dever de comunicar ao serviço tributário as variações do seu domicílio fiscal, a administração financeira está desonerada da tarefa de o procurar fora do último domicílio fiscal conhecido.
Esta máxima é de fundamental importância porque esclarece que, mesmo em situações excecionais como as pós-sismo, a responsabilidade primária de manter atualizado o seu domicílio fiscal recai sobre o contribuinte. A Cassação, de facto, sublinha que o contribuinte está sujeito ao dever de comunicar ao serviço tributário as variações do seu domicílio fiscal. Se não o fizer, a Administração Financeira não é obrigada a procurá-lo noutro local.
A decisão da Cassação tem um impacto direto tanto para os contribuintes como para a Agência das Entradas:
A Corte reconheceu, portanto, a validade das notificações efetuadas pela Agência das Entradas apesar da falta da carta registada, precisamente porque o contribuinte não tinha cumprido o seu dever de informação. A sentença recorrida, que tinha aplicado a irreperibilidade relativa, foi cassada com reenvio para uma nova avaliação à luz destes princípios.
O Acórdão n.º 15196/2025 do Tribunal da Cassação representa um importante precedente para a gestão das notificações tributárias em situações de emergência. Ele equilibra a necessidade da Administração Financeira de garantir a cobrança dos tributos com o direito do contribuinte a ser informado, pondo, no entanto, ênfase na sua responsabilidade de manter atualizados os seus dados anagráficos e fiscais. É um alerta claro: mesmo perante eventos excecionais, a cooperação do contribuinte no fornecimento de informações corretas e atualizadas permanece um pilar fundamental para a regularidade do procedimento tributário e para a tutela dos seus direitos.